Huberto Rohden

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domingo, 29 de maio de 2011

Sofredores profanos e iniciados

O problema não é sofrer ou não sofrer- o problema está em saber sofrer ou não saber sofrer.


Nenhum homem profano sabe sofrer decentemente- mas todo o iniciado pode sofrer serenamente, e até jubilosamente.


Que se entende por profano e iniciado?


Profano é todo aquele que está pró(diante) do fanum(santuário); é todo o exotérico que contempla o santuário do homem pelo lado de fora, e nunca entrou no seu interior... Iniciado é aquele que realizou o seu inire, o seu ir para dentro, a sua entrada no santuário de si mesmo; esse é um esotérico, um iniciado.


O profano é ignorante- o iniciado um sapiente de sua realidade...


Dificilmente, poderá o sofredor modificar as circunstâncias externas de sua vida que estão além do seu alcance, e por isto não pode abolir ou suavizar a sua dor.


O que o sofredor pode modificar é somente a substância interna de si mesmo, a atitude do seu Eu central, a sua consciência- e com esta nova perspectiva de dentro, o fenômeno externo do sofrimento adquire um aspecto totalmente diferente. Se o sofrimento não pode ser amável, pode ser pelo menos tolerável.


Todo o sofrimento, repetimos, é tolerável, quando o homem pode tolerar a si mesmo.


A amargura máxima do sofrimento não está no fenômeno externo dele, mas na atitude interna do sofredor. E essa correta atitude interna supõe autoconhecimento. Quando o sofredor sabe que não é o seu Eu divino,mas apenas o seu ego humano que sofre, então pode ele sofrer serenamente, e mesmo sabiamente-talvez até jubilosamente, por saber que ele está construindo a "única coisa necessária que nunca lhe será tirada."

A maior acerbidade do sofrimento ,como dizíamos, está na sua absurdidade, no seu aspecto paradoxal, no seu caráter antivital e antiexistencial-mas esse aspecto não vem do sofrimento em si, mas unicamente  da falsa perspectiva do sofredor. O sofrimento do sofredor profano é necessariamente absurdo, paradoxal, antivital, antiexistencial, e é capaz  de levar o sofredor à revolta, à frustração, ao suicídio, ou ao inferno em plena vida.

É pois de suprema  sabedoria que o homem mude de perspectiva e atitude- e isto, não quando vítima de uma tragédia, mas em tempos de paz e bonança. Dificilmente, o sofredor alcançará  essa serenidade durante o sofrimento, se antes dele, não a tiver alcançado... O homem deve vacinar, imunizar todo o seu ser com o soro da verdade sobre si mesmo, para que, na hora da tragédia, não sucumba ao impacto das bactérias mortíferas da revolta e do desespero.

... Quem enxerga o porquê da sua existência terrestre apenas nos gozos, já está  em vésperas de frustração. Quem confunde os objetivos da vida- fortuna, prazeres, divertimentos- com a razão-de-ser da sua existência- autoconhecimento e autorealização- é um profano, um exotérico, e não pode encontrar conforto na hora do sofrimento.

É suprema sabedoria iniciar-se na verdade do ser humano desde o princípio. Todos os objetivos da vida têm de ser integrados totalmente na razão-de-ser da existência.

Porque sofremos, páginas 32 a 34, Editora Martin Claret, 2006